qui. fev 5th, 2026

Bernini e os Barberini: a arte do poder em cena no Palazzo Barberini em Roma

Roma sempre soube transformar ambição em beleza. Mas raramente esse processo pode ser observado tão de perto quanto em “Bernini e os Barberini”, exposição em cartaz no Palazzo Barberini Gallerie Nazionali em Roma de 12 de fevereiro a 14 de junho de 2026. Um evento que não é apenas uma mostra de arte: é um mergulho no coração da Roma do século XVII, quando a criatividade era uma linguagem política e a grandeza um projeto deliberado, construído pedra por pedra, imagem por imagem. No centro, inevitavelmente, está ele: Gian Lorenzo Bernini, o grande diretor da teatralidade barroca, o gênio capaz de tornar o mármore um corpo vivo e o ar um gesto esculpido. Mas desta vez a narrativa não se limita ao seu virtuosismo. A exposição coloca em cena a relação decisiva entre o artista e uma das famílias mais influentes do período: os Barberini, protagonistas de uma temporada em que Roma se reinventava não apenas com armas e decretos, mas com esculturas, retratos, cenografias e canteiros de obras.

Uma aliança que definiu uma época

Para entender Bernini, é preciso entender quem o escolheu, o apoiou e o tornou “necessário”. Os Barberini não foram simples mecenas: foram arquitetos de uma imagem pública, construída com a mesma precisão com que se constrói um palácio ou uma cúpula. Em seu projeto de poder refinado, culto, inevitavelmente competitivo a arte tornou-se instrumento de legitimação, e Bernini interpretou isso com rara inteligência: não como ornamento, mas como narrativa. Na exposição, percebe-se a tensão típica do século: o esplendor nunca é neutro, o encanto nunca é inocente. Cada obra que orbita essa relação parece afirmar algo muito claro: Roma é um palco, e quem domina a cena deve fazê-lo também diante dos olhos do mundo.

O Palazzo Barberini: não apenas cenário, mas personagem

Há ainda um elemento que torna esta exposição especialmente poderosa: o lugar. O Palazzo Barberini naõ é apenas uma moldura é um organismo vivo dentro da história. É a casa simbólica da família, o manifesto arquitetônico de sua afirmação. Trazer aqui um percurso dedicado ao diálogo entre Bernini e os Barberini significa trabalhar com uma estratificação real: a do poder que deixou marcas materiais, ainda perceptíveis entre salas, afrescos, perspectivas e solenidade. Entrar na exposição, neste caso, é como atravessar um capítulo da história em que a arte não é comentário, mas trama principal. Respira-se aquele momento em que Roma não queria apenas ser esplêndida: queria ser irresistível.

Bernini, o inventor do Barroco como linguagem pública

Bernini, mais do que qualquer outro, inventou uma nova forma de falar ao público. Suas formas não buscam a distância reverencial: buscam presença. Foram concebidas para “acontecer” diante do olhar, para capturar a percepção, para transformar o visitante em testemunha. E é por isso que esta exposição soa tão atual: ela conta a história de uma arte que não se limita a ser grandiosa, mas que sabe comunicar. O Barroco, visto por este ângulo, parece quase um precursor das estratégias contemporâneas: cria emoção, constrói consenso, dirige a atenção. Só que faz isso com a matéria mais nobre e definitiva: mármore, bronze, arquitetura, o gesto congelado no tempo.

Um século XVII mais parecido com o presente do que imaginamos

“Bernini e os Barberini” realiza uma operação rara: fazer com que o passado não seja nostalgia, mas espelho. Porque nessa relação entre artista e poder existe algo que reconhecemos facilmente: a necessidade de se afirmar, de comunicar uma ideia de autoridade, de produzir imaginário. No fundo, os Barberini buscavam aquilo que toda época busca ao investir em arte: uma forma de eternidade, ou ao menos de permanência. Bernini lhes ofereceu não apenas obras-primas, mas uma estética capaz de tornar essa eternidade convincente até mesmo inevitável.

Por que vale a pena ver

Esta exposição merece ser visitada por vários motivos: pela qualidade da narrativa, pela força do contexto, pela oportunidade de observar de perto como nasce uma temporada cultural quando talento e poder se encontram e, por vezes, se seduzem. Mas, sobretudo, porque nos lembra de algo essencial: na Roma do século XVII, assim como hoje, a beleza nunca foi apenas beleza. Era uma linguagem. E saber falá-la significava governar.

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