sáb. fev 7th, 2026

As chiacchiere de Carnaval: o doce italiano que atravessou impérios, séculos e excessos

Fevereiro chega todo ano com o mesmo perfume. Açúcar de confeiteiro no ar, vitrines douradas, massas abertas tão finas que parecem promessas de leveza. É o sinal de que o Carnaval voltou e, com ele, um de seus símbolos mais comentados: as chiacchiere.

Não é apenas um doce, mas um ritual que se repete, uma memória coletiva que passa de mão em mão, de forno em forno, de região em região. Crocantes a ponto de se quebrar com um estalo seco, leves e ao mesmo tempo indulgentes, parecem feitas para serem comidas distraidamente, mas acabam sempre suspendendo o tempo. Mas de onde elas vêm, de fato?

A história não começa numa confeitaria nem numa cozinha doméstica. Começa muito antes, quando Roma ainda não celebrava o Carnaval, mas os Saturnais. Dias de excesso, de papéis invertidos, de liberdade temporária concedida a todos. Nessas ruas cheias, entre banquetes improvisados e festas populares, circulavam as frictilia: doces fritos em gordura de porco, distribuídos à multidão como símbolo de abundância e quebra das regras.

Não é apenas imaginação. Quem descreve isso é Apício, o gastrônomo mais famoso da Antiguidade, que no De re coquinaria fala de frituras feitas com ovos e farinha de espelta, fritas na gordura e mergulhadas no mel. A forma muda, o gesto permanece. Fritar, compartilhar, celebrar. No fundo, o Carnaval sempre foi isso.

Os séculos passam, o Império cai, as tradições mudam de nome, mas não de essência. As chiacchiere viram bugie na Ligúria, cenci na Toscana, frappe em Roma, galani no Vêneto, cròstoli no Friuli. A palavra muda, o ritual fica. A receita varia pouco, adapta-se aos costumes locais, recebe um vinho ou um licor diferente, mas preserva sua alma simples: farinha, ovos, açúcar, manteiga. E, acima de tudo, a massa aberta até quase desaparecer.

As bolhas que surgem na fritura não são detalhe estético. São prova. Falam de uma mão experiente, de uma massa trabalhada com paciência, de um óleo na temperatura certa. Antigamente era banha, como no tempo dos romanos. Hoje quase sempre é óleo vegetal, mais leve, mais contemporâneo. Há quem escolha o forno, para aliviar a consciência. Mas o resultado, sejamos honestos, muda. E isso já se sabia há dois mil anos.

As chiacchiere não pedem reinvenção. Pedem respeito. Porque toda vez que se quebram entre os dedos, carregam algo que vai além do sabor: uma festa antiga, uma liberdade momentânea, um excesso permitido. Um doce que fala pouco, mas diz tudo.

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