Há algo profundamente perturbador e, ao mesmo tempo, necessário em olhar para um tronco cortado e não enxergar o fim. Nem a morte, nem o descarte. Mas um começo. É exatamente nesse ponto que se posiciona o olhar de Andrea Gandini, romano, nascido em 1997, alguém que decidiu fazer algo simples e radical ao mesmo tempo: devolver dignidade àquilo que a cidade abandona.
Não é uma história romântica. Não nasce em museus, nem em academias. Nasce em uma garagem e em uma calçada. Nasce quando um jovem percebe que aqueles troncos deixados ali amputados, esquecidos, destinados a desaparecer não são apenas resíduos urbanos. São matéria viva, mesmo na morte.
E então ele pega as ferramentas, antes mesmo de ter uma direção clara, e começa.
Ele não esculpe a madeira: ele a escuta.
Aos 16 anos, o laboratório é a própria casa. Aos 17, a cidade. Roma se torna seu primeiro campo de experimentação, mas também seu primeiro interlocutor. Porque trabalhar no espaço público significa se expor, mas também dialogar com quem não escolheu aquela arte.
O ponto de virada chega quase por necessidade: o material acaba. E, no entanto, o material, na verdade, está em todo lugar. Basta mudar o olhar.
Aqueles troncos abandonados tornam-se seu mármore.
Não por acaso, ecoa sem imitação, mas com uma urgência interior a lição de Michelangelo Buonarroti: ver uma forma e libertá-la. Só que aqui não se trata de anjos perfeitos, mas de rostos consumidos, animais, símbolos, presenças.
Presenças, sim. Porque Gandini não esculpe objetos. Ele esculpe indivíduos. As árvores, na sua visão, não são mobiliário urbano. São seres vivos. Têm sexo, ciclo, história. Crescem, respiram, se reproduzem, atravessam as estações e, muitas vezes, sobrevivem a gerações inteiras de seres humanos.
E depois, um dia, são abatidas. A passagem da vida ao descarte é brutal. E é exatamente aí que sua arte intervém: uma forma de resistência silenciosa, quase política.
Cada escultura é uma lápide, mas também uma ressurreição. Ao observar suas obras na saída do metrô, em um parque, em uma rua esquecida tem-se a sensação de estar sendo observado. Os rostos emergem da madeira com uma força inquietante, como se sempre estivessem ali, à espera.
E talvez seja exatamente isso.
Gandini nunca impõe uma forma. Ele negocia. Segue as veias da madeira, respeita as curvas, aceita os limites do material. Porque a madeira, ao contrário do mármore, não perdoa. Ainda está viva, mesmo quando já não está.
Errar significa quebrá-la. Forçá-la significa perdê-la.
Por isso, cada obra é, antes de tudo, um ato de escuta.
Ao longo dos anos, o projeto “Troncomorto” ultrapassou as fronteiras de Roma. Do Trentino à Sicília, suas esculturas começaram a se multiplicar, como se o território italiano tivesse encontrado uma nova linguagem para se contar.
Em Roma, já são mais de sessenta. Mas é na Sicília, em Partinico, que está nascendo algo diferente: um parque inteiro, 35 esculturas criadas a partir de troncos locais. Não uma instalação. Um ecossistema artístico.
Um gesto que redefine completamente o conceito de descarte.
Depois, há as obras que não apenas existem, mas impactam. Como a rosa não desabrochada dedicada a Pamela Mastropietro. Não é apenas uma escultura. É um aviso. Um ponto de tensão entre arte e realidade.
Para Gandini, o valor da arte não está na estética por si só, mas na capacidade de revelar aquilo que normalmente ignoramos.
A dor. O abandono. As escolhas erradas.
E talvez também a possibilidade de evitá-las.
Quando fala do seu trabalho, ele usa uma palavra que hoje parece quase fora de lugar: sacralidade. Não espetáculo. Não entretenimento. Sacralidade.
A escultura, diz ele, deve impor respeito. Deve mudar o olhar. Deve obrigar você a parar.
Em um mundo que corre rápido demais, isso é quase um ato subversivo.
E então a pergunta permanece no ar: o que realmente vemos quando passamos por um tronco cortado?
Um obstáculo? Um resíduo? Ou algo que está apenas esperando para ser visto de verdade?
Gandini não dá respostas. Ele não precisa.
Ele pega uma motosserra, segue uma veia da madeira e deixa que seja ela a falar. E, naquele instante, a cidade distraída, barulhenta, indiferente se vê, de repente, cheia de olhos.





