Há um instante, antes mesmo de a bola ser colocada no meio-campo, em que o Brasil deixa de ser apenas uma seleção e volta a ser um povo. Isso acontece quando o hino começa. A versão oficial segue solene, contida. Depois, a música para. E a partir daí ficam apenas as vozes. As dos jogadores, as dos torcedores, as de um país inteiro que continua cantando a capela, como um pacto coletivo que dispensa explicações.
Carlo Ancelotti descobriu o Brasil de verdade nesse momento. Não como adversário, nem como observador distante, mas como técnico da Seleção. Um impacto emocional forte, profundo. O treinador italiano, que caminha para se tornar o primeiro estrangeiro a comandar o Brasil em uma Copa do Mundo masculina, já decidiu que não quer apenas ouvir o hino. Quer cantá-lo. Tem um ano pela frente para aprendê-lo, verso por verso, com uma ideia clara: fazer parte desse ritual que antecede cada partida e que diz mais do que qualquer discurso sobre o que significa vestir essa camisa.
Sua chegada ao Brasil, representou uma ruptura com o passado. Pela primeira vez Ancelotti não vive a rotina de um clube, não está preso ao ritmo obsessivo de treinos e jogos a cada poucos dias. Aqui o tempo tem outra dimensão. Há convocações, espera, trabalho silencioso. E há o Rio de Janeiro, uma cidade que não pede para ser compreendida: ela se impõe. O mar, o verde, o caos fascinante, as pessoas. Ancelotti fala disso com naturalidade, até em português: viver no Rio é “muito bonito”.
Mas, além da beleza, existe o peso simbólico da Seleção. Treinar o Brasil é lidar diariamente com um sentimento nacional. Quando a Seleção joga, o país realmente para. As ruas esvaziam, o tempo parece suspenso, e toda a atenção se volta para onze camisas amarelas que representam algo muito maior do que uma partida de futebol. Ancelotti sempre soube disso, mas viver por dentro é diferente.
O Brasil, afinal, já fazia parte de sua memória muito antes do Rio. A primeira lembrança vem de 1970, da final da Copa do Mundo contra a Itália. Ele tinha 11 anos e via Pelé, Jairzinho, Tostão e Rivelino desfilarem em campo. Aquele 4 a 1 não foi apenas uma derrota esportiva, mas a revelação de um futebol capaz de se transformar em linguagem universal, em beleza pura. Uma imagem que nunca se apagou.
Depois, o Brasil entrou também em sua vida profissional. Em Roma, no início dos anos 1980, com Falcão e Cerezo. Dois craques, mas sobretudo duas pessoas capazes de levar ao vestiário uma leveza diferente, uma alegria contagiante. Com eles, Ancelotti compartilhou jogos, risadas e amizade. Lembranças que hoje reaparecem enquanto ele observa uma nova geração de talentos.
Porque o Brasil continua produzindo talento como se fosse um recurso natural. Um talento instintivo, quase genético, que muda de forma, mas preserva a essência. Ancelotti o observa com o olhar do treinador experiente, mas também com o olhar daquele garoto que, em 1970, ficou encantado diante da Seleção mais icônica de todos os tempos.
O caminho até a Copa do Mundo de 2026 está só começando, mas o tempo joga a favor. O Brasil já está classificado, o que permite construir com calma, observar, refletir. A próxima Copa será diferente: 48 seleções, mais países, mais histórias. Para Ancelotti, é um sinal positivo, mais um passo rumo a um futebol verdadeiramente global.
E há ainda um detalhe pessoal que torna esse Mundial especial. O Canadá será uma das sedes, e Vancouver, onde Ancelotti vive, receberá algumas partidas. Um lugar onde vida pessoal e carreira se cruzam, e por onde o Brasil também pode passar. Uma possibilidade que o encanta.
Enquanto isso, há um hino para aprender. Não por obrigação, mas por respeito. Porque treinar o Brasil é, antes de tudo, compreender a identidade. E quando aquelas vozes começam a cantar sem música, você deixa de ser apenas um treinador. Você passa a fazer parte de uma história que continua emocionando o mundo.

