qua. jan 21st, 2026

Acordo UE–Mercosul: o que muda para Brasil e Itália após a assinatura

A assinatura do acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul, formalizada neste sábado em Assunção, marca um ponto de inflexão histórico nas relações econômicas entre os dois blocos. Negociado por mais de duas décadas, desde 1999, o tratado finalmente saiu do papel em 2024 e agora entra em sua fase mais delicada: a aprovação política e legislativa que permitirá sua entrada em vigor.

Para o Brasil, trata-se de uma mudança estrutural no posicionamento internacional do comércio exterior. Segundo um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o acordo amplia o acesso do país aos mercados globais de 8% para 36%, considerando que a União Europeia respondeu por 28% do comércio mundial em 2024. Não por acaso, o setor industrial brasileiro define a formalização da parceria como uma “virada estratégica”.

O caminho até a entrada em vigor

Apesar da assinatura, o acordo ainda não produz efeitos imediatos. Na Europa, o texto precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu e, em seguida, ratificado pelos Estados-membros conforme suas regras internas. No Mercosul, o processo passa pelos congressos nacionais de cada país, incluindo o Congresso brasileiro. Somente após a conclusão desses trâmites e a notificação formal entre as partes, o tratado entra em vigor, no primeiro dia do mês seguinte à última ratificação.

Existe ainda a possibilidade de aplicação bilateral antecipada, caso algum país conclua seus procedimentos antes dos demais, uma opção prevista no próprio texto para evitar novos anos de espera.

Tarifas, prazos e abertura de mercados

Do ponto de vista prático, o acordo prevê a eliminação ou redução de tarifas sobre cerca de 95% dos bens comercializados entre Brasil e União Europeia, o equivalente a 92% do valor das importações europeias de produtos brasileiros. Para mais da metade dos itens exportados pelo Brasil, aproximadamente 5.000 produtos, o acesso ao mercado europeu será imediato e livre de tarifas.

Para os demais bens, os prazos de transição variam entre 4 e 12 anos, no caso europeu, e entre 4 e 15 anos para a abertura do mercado brasileiro aos produtos da UE. Setores considerados sensíveis, especialmente agrícolas e agroindustriais, seguem regimes específicos, com cotas e tarifas reduzidas.

Agricultura no centro do debate

É no campo agrícola que o acordo concentra atenções políticas e econômicas. Carnes, açúcar e etanol terão acesso regulado ao mercado europeu. A carne bovina brasileira contará com uma cota inicial de 99 mil toneladas, com tarifa reduzida para 7,5%, além da eliminação da tarifa da chamada Cota Hilton para cortes especiais. A carne de aves terá cota de 180 mil toneladas com tarifa zero, enquanto a carne suína terá um limite menor e tarifa específica.

O etanol será diferenciado conforme o uso: o industrial terá uma cota de 450 mil toneladas com tarifa zero, enquanto o etanol combustível contará com uma cota menor e tributação reduzida. Açúcar, frutas, suco de laranja, queijos e cachaça também entram no acordo com regras próprias.

O papel da Itália no comércio bilateral

A Itália aparece como um dos principais elos dessa nova fase. Em 2024, foi o quarto maior destino das exportações brasileiras dentro da União Europeia, com US$ 5,4 bilhões, atrás apenas de Países Baixos, Espanha e Alemanha. Em 2025, segundo dados do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), o Brasil exportou US$ 49,8 bilhões para o bloco europeu, com destaque para combustíveis minerais, café e minérios, enquanto importou US$ 50,3 bilhões, sobretudo máquinas industriais, produtos farmacêuticos e veículos.

Para a Itália, o acordo significa acesso mais competitivo ao mercado brasileiro em setores como bens de capital, tecnologia industrial, fármacos e, no médio prazo, veículos de novas tecnologias. O setor automotivo, porém, terá prazos mais longos de adaptação, chegando a até 30 anos para veículos movidos a hidrogênio.

Impactos econômicos de longo prazo

As projeções oficiais do governo brasileiro indicam efeitos positivos graduais. A preços de 2023, estima-se um impacto de 0,34% no PIB até 2044, aumento de 0,76% nos investimentos, crescimento dos salários reais e redução dos preços ao consumidor. As exportações totais podem crescer 2,65%, enquanto as importações aumentariam 2,46%, reforçando a integração produtiva entre os blocos.

Mais do que números, o acordo Ue–Mercosul redefine o papel do Brasil no comércio global e reforça a Itália como parceiro estratégico dentro da Europa. Depois de 25 anos de negociações, o desafio agora é transformar a assinatura em resultados concretos, equilibrando abertura de mercados, proteção de setores sensíveis e ganhos econômicos sustentáveis para ambos os lados do Atlântico.

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