qui. fev 12th, 2026

A Torre de Pisa: quando o erro vira eternidade

A Torre de Pisa não nasceu rebelde; ela foi moldada pelo solo. Tudo começou em 9 de agosto de 1173, quando alguém teve a brilhante ideia de empilhar toneladas de mármore branco sobre um terreno que tinha a consistência de um pudim de argila.  Ela começou como qualquer outra torre medieval: confiante, elegante e absolutamente convencida de que subiria reta rumo ao céu. O plano era ousado, solene e… um pouquinho arrogante.

O resultado? Bastou chegar ao terceiro andar, em 1178, para a torre olhar para o lado e decidir: “Acho que vou dar uma deitadinha”. E desde então, nada naquela praça foi perfeitamente reto.

Era 9 de agosto de 1173 quando lançaram a primeira pedra do campanário da Catedral de Santa Maria Assunta, na Piazza dei Miracoli. Mármore branco, projeto ambicioso, clima de celebração. O único detalhe quase irrelevante? O terreno. Argiloso. Instável. Levemente traiçoeiro. Basicamente o tipo de solo que sussurra: “Tem certeza?”

A fundação desceu menos de quatro metros. Hoje sabemos: pouco para quem pretendia erguer mais de 14 mil toneladas de mármore. Em 1178, ao chegar ao terceiro pavimento, a torre fez algo inusitado. Não caiu. Não rachou. Apenas inclinou. Discretamente. Como quem percebe um erro de postura, mas decide continuar assim mesmo.

E ali começava a lenda.

A obra foi interrompida. Recomeçada. Pausada de novo. Guerras, crises financeiras, decisões repensadas. Mais de um século se passou até que alguém resolvesse terminar o que havia começado, talvez na esperança de que, nesse meio-tempo, o chão tivesse refletido sobre suas escolhas.

Entre 1272 e 1278, Giovanni di Simone e Giovanni Pisano tiveram uma ideia quase comovente: acrescentar novos andares levemente curvados no sentido oposto à inclinação. Era como se a torre estivesse tentando se autocorrigir. Um gesto humano aplicado à pedra. Resultado? Ela ficou… torta com elegância.

No século XIV, Tommaso di Pisa concluiu a parte superior: sete sinos, sete notas, uma voz que ainda ecoa sobre a cidade. E que, convenhamos, poderia muito bem soar como um discreto “eu avisei” para os engenheiros do século XII.

Hoje, a torre mede cerca de 57 metros de um lado e um pouco menos do outro, sim, ela é oficialmente assimétrica. São 294 degraus em espiral dentro de dois cilindros concêntricos. Do lado de fora, seis níveis de colunas e arcos perfeitos. Perfeitos. A ironia arquitetônica nunca foi tão bem esculpida.

Durante séculos, o mundo assistiu esperando o desfecho dramático. Terremotos vieram. Tentativas de correção também, algumas quase piores que o problema original. E então veio a reviravolta científica: estudos modernos mostraram que a inclinação ajuda a torre a resistir a abalos sísmicos. Ela oscila, absorve energia, distribui tensões. Ou seja: o que parecia erro virou vantagem competitiva medieval.

Entre 1993 e 2001, engenheiros decidiram agir com delicadeza. Removeram solo de forma controlada, aplicaram contrapesos de chumbo, estabilizaram a estrutura. A inclinação foi reduzida de cerca de 5,5° para 3,97%. Não para deixá-la reta. Apenas para garantir que continue sendo… ela mesma.

Ao redor, as histórias se multiplicam. Há quem evite subir por superstição. Há um carneiro esculpido na entrada, símbolo do antigo ano novo pisano. E há Galileo Galilei, que supostamente observava a queda dos corpos dali e, segundo relatos menos científicos, também fazia horóscopos. A ciência e o misticismo convivendo sob o mesmo ângulo improvável.

Visitar a torre exige estratégia: apenas 30 pessoas a cada 15 minutos. O ingresso gira em torno de 27 euros e inclui a Catedral, o Batistério e o Camposanto. No verão, é possível subir até as 22h; no inverno, o horário encolhe. Estacionar? Um teste adicional de fé, caro perto da praça, mais amigável no Piazzale Kennedy com ônibus até o centro.

Mas no fim, a Torre de Pisa não é apenas um monumento inclinado. É uma aula prática de imperfeição bem-sucedida. Um lembrete em mármore de que nem todo desvio precisa ser corrigido às pressas. Às vezes, precisa ser entendido, estabilizado e transformado em assinatura.

Porque, convenhamos: se ela fosse perfeitamente reta, talvez fosse apenas mais uma torre. Assim, tornou-se inesquecível.

Serviço:

Para saber mais, acesse: opapisa.it

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *