dom. mar 15th, 2026

Houve um tempo, não muito distante, em que os italianos olhavam para o mar… mas não iam até ele para passar férias. Ou melhor: iam pouquíssimos. A ideia da praia como lugar de descanso, lazer e bronzeado é muito mais recente do que parece. Durante séculos, o mar foi sobretudo trabalho, comércio, pesca e tempestades. Não guarda-sol colorido nem férias de verão.

O turismo de praia na Itália nasce no século XIX, mas, no começo, era um privilégio para poucos: nobres, aristocratas e a burguesia rica.

Tudo começa em 1827, em Viareggio, na Toscana, com o primeiro estabelecimento balnear do país, o “Stabilimento de’ Bagni”.

Na época, ir ao mar não era exatamente diversão. Os banhos eram considerados terapêuticos, quase um tratamento de saúde. As estruturas tinham cabines fechadas para preservar o pudor dos banhistas.

A ideia se espalhou rapidamente. Nas décadas seguintes surgiram novos estabelecimentos em Rimini (1843), Livorno (1846) e no Lido de Veneza (1857), além de várias cidades costeiras da Ligúria, de Nápoles e Palermo.

Mesmo assim, durante muito tempo o mar continuou sendo um luxo.

A presença real dos italianos nas praias só começou a crescer durante o período do regime de Mussolini. O governo incentivou as chamadas colônias marítimas, grandes centros de férias para crianças e jovens, onde eram promovidas atividades físicas, banhos de mar e educação coletiva.

Mas a verdadeira explosão do turismo de praia veio apenas depois da Segunda Guerra Mundial, durante o milagre econômico italiano dos anos 1950 e 1960.

Com salários maiores, carros populares e novas estradas, milhões de italianos passaram a viajar nas férias. As fábricas fechavam em agosto e começava o famoso êxodo de verão.

Famílias inteiras partiam rumo ao mar em carros pequenos como a Fiat 500 e a Fiat 600, carregados com guarda-sol, malas e comida para a viagem. As praias italianas se transformaram. Surgiram milhares de estabelecimentos balneares, e cidades inteiras passaram a viver do turismo.

Destinos como Rimini, Riccione, Portofino, Forte dei Marmi, Mondello e Capalbio tornaram-se símbolos do verão italiano. A cultura da praia também mudou a moda. Em 1946, o designer francês Louis Réard apresentou o revolucionário bikini.

Para os padrões da época, o traje era extremamente ousado. O nome fazia referência ao Atol de Bikini, no Pacífico, onde os Estados Unidos realizavam testes nucleares. A intenção era clara: causar um impacto “explosivo”. E conseguiu.

O bikini rapidamente se tornou um símbolo de modernidade e emancipação feminina.

Hoje, ir ao mar no verão parece algo óbvio para os italianos. Mas essa tradição nasceu há pouco mais de meio século e ajudou a transformar profundamente o país. Porque, no fundo, a praia italiana não é apenas um lugar.
É um pedaço da história social da Itália.

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