Hoje, 5 de março, a Itália levanta os copos para celebrar um de seus destilados mais emblemáticos. A Giornata Internazionale della Grappa reúne produtores, especialistas e apaixonados por bebidas em um brinde coletivo que atravessa o país de norte a sul.
A iniciativa, promovida pela Associação Nacional dos Degustadores de Grappa e Aguardentes (Anag), propõe um brinde virtual que conecta destilarias e apreciadores para homenagear aquilo que muitos consideram a alma líquida da tradição italiana.
Mais do que uma bebida, a grappa é parte da cultura do país.
A história da grappa está profundamente ligada à tradição rural do norte da Itália. Ao contrário de muitos destilados feitos a partir de cereais ou frutas, a grappa nasce do reaproveitamento da vinaccia, o bagaço das uvas que sobra depois da produção do vinho. Cascas, sementes e pequenas quantidades de polpa são destiladas para extrair um espírito intenso e aromático.
Durante séculos, esse processo foi uma forma inteligente de evitar desperdícios nas regiões vinícolas. Camponeses transformavam o que restava da colheita em uma bebida forte, aquecedora e cheia de caráter. Com o tempo, aquilo que começou como tradição popular evoluiu para uma arte refinada de destilação.
Historicamente, a grappa nasceu nas regiões alpinas do norte da Itália, especialmente no Vêneto, Friuli-Venezia Giulia, Trentino e Piemonte, áreas onde a cultura da vinha sempre foi central para a economia e para a vida cotidiana. Ali surgiram algumas das destilarias mais tradicionais do país, muitas delas ainda familiares, que transformaram a produção artesanal em referência internacional.
Hoje, a grappa pode ser produzida em diferentes partes da Itália, mas continua profundamente associada a essas regiões do norte. Cada tipo de uva utilizada na produção do vinho pode dar origem a uma grappa diferente, criando uma enorme variedade de aromas e estilos.
O processo começa com a fermentação da vinaccia e segue com a destilação em alambiques — tradicionalmente de cobre. O resultado é um destilado transparente e potente, que geralmente possui graduação alcoólica entre 35% e 60%. Algumas grappas são consumidas jovens, preservando aromas mais frescos e intensos.
Outras passam por envelhecimento em barris de madeira, adquirindo notas mais suaves, com toques de baunilha, especiarias e frutas secas. Essa diversidade faz da grappa um universo complexo, muito além da imagem de bebida forte que muitos ainda associam a ela.
Na Itália, a grappa é tradicionalmente servida como digestivo, após as refeições. Pequenos copos, muitas vezes em formato de tulipa, ajudam a concentrar os aromas. Em algumas regiões, ela também aparece em um costume curioso chamado “caffè corretto”: um espresso “corrigido” com um pequeno toque do destilado. Outro ritual tradicional é o “resentin”, comum no Vêneto. Depois de tomar o café, coloca-se um pouco de grappa na xícara para aproveitar o açúcar e os aromas que restaram no fundo.
Para os produtores e apreciadores, a grappa representa algo mais profundo do que um simples destilado. Desde 1978, a Anag reúne degustadores e especialistas que trabalham para promover a qualidade e a cultura da degustação responsável da bebida.
Hoje, no Dia Internacional da Grappa, o brinde coletivo que une destiladores e apreciadores celebra exatamente isso: uma tradição que nasceu nas montanhas, atravessou gerações e continua sendo um dos sabores mais autênticos do Made in Italy. E talvez seja justamente essa mistura de história, território e paixão que faz da grappa algo único. Porque, em cada pequeno copo servido após o jantar, existe um pouco da própria alma da Itália.
A Grappa celebra seu dia: conheça a história do destilado mais italiano que existe

