sex. mar 6th, 2026

A aposta da Stellantis na reciclagem automotiva no Brasil

Existe uma fábrica, no Brasil, onde os carros não nascem. Eles terminam. E justamente por isso recomeçam.
No mundo industrial estamos acostumados a imaginar linhas de montagem que montam, soldam, constroem. Em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, acontece o contrário: ali os carros são desmontados peça por peça. Não para destruí-los, mas para devolver valor ao que normalmente seria considerado apenas sucata.
É o experimento industrial iniciado pela Stellantis, que em agosto de 2025 inaugurou o primeiro centro de desmontagem automotiva da América do Sul dedicado à recuperação e revenda certificada de componentes usados. Um projeto que, mais do que uma simples oficina avançada, representa um laboratório concreto de economia circular aplicada ao setor automotivo.
O centro se chama Circular AutoPeças e, nos seus primeiros seis meses de atividade, já contou uma história que a indústria automobilística observa com atenção.


Seiscentos veículos provenientes de acidentes com perda total ou chegados ao fim de sua vida útil foram desmontados. Não de forma indiscriminada, mas analisados com uma precisão quase cirúrgica. O resultado? Mais de 360 toneladas de materiais recuperados: 334 toneladas de aço e alumínio, 26 toneladas de plástico e quase duas toneladas de cobre.
Mas o dado que melhor explica o sentido da operação não está nos metais. Está nas peças.


Mais de nove mil componentes originais ainda perfeitamente funcionais alternadores, câmbios, portas, módulos eletrônicos foram recuperados, certificados e recolocados no mercado como peças usadas multimarca. Destas, mais de quatro mil já foram vendidas.
Um número que revela algo muito simples: o reuso não é apenas uma teoria ambiental, mas também um modelo econômico.
O Brasil, nesse sentido, é um laboratório ideal. A frota de veículos do país é enorme e, em média, mais antiga do que a europeia. Milhões de motoristas procuram peças confiáveis a preços acessíveis. E a diferença entre comprar um componente novo ou um recondicionado pode ser significativa.


É aí que a ideia da Stellantis se torna interessante. Não se trata apenas de reduzir resíduos industriais, mas de repensar o ciclo de vida do automóvel. Se um veículo não pode mais circular, muitas de suas partes ainda podem continuar rodando.
O centro de Osasco foi projetado com capacidade potencial de desmontar até 8.000 veículos por ano. O investimento foi de cerca de 13 milhões de reais pouco mais de dois milhões de dólares e gerou aproximadamente 150 empregos.
As peças recuperadas são vendidas diretamente na loja física dentro do próprio complexo industrial ou online através de plataformas muito populares na América Latina, como Mercado Livre, com planos futuros para a criação de um e-commerce próprio.


Por trás da iniciativa também existe uma estratégia mais ampla. A Stellantis reuniu suas atividades de reuso e regeneração sob a marca SUSTAINera, com o objetivo de reduzir o impacto ambiental da indústria automotiva. Cada componente reutilizado significa menos energia consumida para produzir um novo, menos emissões e menos resíduos destinados ao descarte.
É uma mudança cultural antes mesmo de ser industrial. Durante décadas o automóvel foi pensado como um objeto de ciclo linear: produção, uso e descarte. A economia circular tenta transformar essa linha em um círculo.
E talvez o sinal mais interessante venha justamente dessa fábrica que não constrói nada.


Porque às vezes o futuro da indústria não nasce adicionando novas peças. Mas aprendendo a dar uma segunda vida às que já existem.

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