seg. fev 9th, 2026

Italianos e brasileiros reclamam da grana curta, mas apostam e gastam bilhões em jogos e bets

Há um paradoxo que atravessa discursos públicos e conversas privadas na Itália e
no Brasil. De um lado, a percepção difusa de empobrecimento, salários curtos,
inflação alta e futuro incerto. Do outro, um dado checado e recorrente: nunca se
apostou tanto dinheiro. Loterias, caça-níqueis, apostas esportivas e plataformas
online movimentam cifras que colocam em xeque a narrativa do “não dá para
chegar ao fim do mês”.

Na Itália, o contraste é evidente. Segundo a Agenzia delle Dogane e dei Monopoli, em 2024 os italianos
apostaram cerca de 157 bilhões de euros, aos quais se somam estimativas de
mais 20 bilhões ligados ao jogo ilegal. A despesa média anual ultrapassa
2.600 euros por habitante, um valor superior à própria despesa pública
per capita em saúde. Um país que se diz em dificuldade, mas que continua
alimentando um dos maiores mercados de jogo da Europa.

Os estudos do Istat mostram que o perfil do jogador é transversal: homens
e mulheres, diferentes rendas e idades, com maior incidência nas áreas socialmente
mais frágeis. Não por acaso, autoridades italianas mantêm investigações
permanentes sobre riscos de lavagem de dinheiro, especialmente no jogo online
e no circuito ilegal, considerado uma porta de entrada para fluxos financeiros
opacos.

No Brasil, os números são inferiores, mas o resultado final também impressiona. O avanço das apostas esportivas digitais criou um
mercado bilionário. Estudos do Banco Central do Brasil indicam que, apenas em 2023 e 2024, os
brasileiros movimentaram o equivalente a cerca de 35 bilhões de euros
(aproximadamente 190 bilhões de reais), transferidos para plataformas de
apostas, muitas delas sediadas fora do país.

O perfil do apostador brasileiro, segundo pesquisas do IBGE e de universidades federais, é mais jovem
do que o italiano, concentrado entre homens de 18 a 39 anos, fortemente ligados
ao futebol e ao uso intensivo de aplicativos móveis. O crescimento acelerado
acendeu alertas no governo, a ponto de ser discutida a proibição do uso de
recursos do Bolsa Família para apostas, numa tentativa de proteger famílias de
baixa renda.

Assim como na Itália, o tema do controle financeiro entrou na agenda. Órgãos
brasileiros investigam riscos de lavagem de dinheiro e uso das bets para
ocultar recursos ilícitos, em um mercado que cresceu mais rápido do que a
capacidade regulatória do Estado.

No fundo, Itália e Brasil compartilham a mesma contradição: sociedades que se
declaram pobres, pressionadas e inseguras, mas que continuam apostando bilhões
em jogos de azar. Um retrato incômodo, que diz menos sobre sorte e mais sobre
expectativas, frustrações e a relação contemporânea com o dinheiro.

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