Se você acha que a história do vinho na Itália começa com taça, termina com brinde e passa obrigatoriamente por um garçom, sinto informar: você foi enganado por séculos de etiqueta. Em Florença, o vinho sempre teve um jeito mais… low profile. Literalmente. Estamos falando das buchette del vino, “janelinhas” minúsculas abertas na base dos palácios, na altura perfeita para você fazer duas coisas: comprar vinho e parecer discretíssimo fazendo isso. Uma espécie de “drive-thru” renascentista, só que sem carro, sem app, sem QR code e com muito mais pedra serena. E como toda tendência que renasce com charme histórico, as buchette saíram do modo “curiosidade arquitetônica” para o modo febre turística com direito a associações que catalogam, mapeiam e até sinalizam essas aberturas (sim, há um censo e mapas oficiais de pesquisa, não é só “vi no TikTok”).
Como isso começou (spoiler: nada de fofo)
A origem tem aquele tempero clássico de história urbana: comércio, poder e um pouco de “vamos cortar o intermediário”. Há registros e reconstruções históricas que apontam para o uso dessas janelas por famílias proprietárias de vinhedos para vender vinho diretamente ao público e, segundo relatos populares e recontagens modernas, a prática ganha força no período moderno (séculos XVI–XVII). Durante a pandemia, a ideia de “servir sem contato” fez o mundo inteiro olhar para Florença e pensar: “eles já faziam isso e ainda por cima é bonito?”. Aí pronto: ressurgiu.
Florença: o Disneyland das janelinhas (só que de verdade)
Florença é o grande palco. O censo da Associazione Buchette del Vino aponta para números impressionantes na cidade e também fora dela, além de mapear locais e rotas. E aqui vai o pulo do gato: nem toda buchetta “serve” vinho hoje. Muitas estão muradas, outras ficam em residências, e algumas foram reativadas por estabelecimentos (vinho, café, gelato porque a Itália nunca perde a chance de melhorar um conceito). A própria associação lista locais que têm buchetta “em funcionamento gastronômico”, incluindo nomes bem conhecidos na cidade. A cena é sempre a mesma (e sempre ótima): você chega, procura um buraquinho charmoso no muro, bate/avisa/encosta, e uma mão invisível aparece com sua alegria engarrafada. É como receber um recado do século XVII dizendo: “toma, vai viver”.
Toscana além de Florença: a rota cresce (e fica séria)
Se você pensou “ok, isso é coisa de Florença”, a Toscana responde: não mesmo. A associação aponta que, além de Florença, existem dezenas de outras localidades na Toscana com buchette catalogadas, com mapas específicos e atualizações constantes.
Onde procurar
• Pistoia: tem uma seção própria dentro do projeto da associação e um mapa interativo com buchette da cidade (e histórias de restauração recente que parecem roteiro de filme).
• Prato: há registros e roteiros locais indicando várias buchette no centro histórico (um mini “safari urbano” perfeito).
• Lucca: fontes locais mencionam buchette remanescentes no centro histórico.
• Siena (província): aparece em materiais ligados ao universo das buchette e na narrativa regional sobre a tradição.
Em outras palavras: dá, sim, para montar uma “rota” com várias paradas e não apenas em Florença.
Plot twist tropical: do Renascimento ao Bixiga
E aí a tradição cruza o Atlântico e vai parar em São Paulo, no Bixiga onde qualquer ideia italiana tem duas opções: virar cantina ou virar carnaval. Às vezes, os dois. Nos últimos anos, a “janelinha do vinho” ganhou versão brasileira no bairro, com repercussão em redes sociais e cobertura de imprensa, inclusive com detalhes de cardápio e preços.
• Na Itália, a buchetta nasceu como solução urbana e comercial;
• No Bixiga, ela vira experiência: um ritual instagramável, uma mini-performance de rua, um “portal” para a Toscana sem passagem aérea.
É basicamente: Florença te dá história; o Bixiga te dá história + enredo + fila + alguém dizendo “amiga, grava aqui”.
Um roteiro esperto (e honesto) para o leitor: “caça às janelinhas”
1) Florença (obrigatória)
• Vá com mapa/censo em mãos (senão você passa reto por várias).
• Dica: transforme em “caça ao tesouro” cada janelinha é um microcapítulo.
2) Bate-volta na Toscana
• Pistoia para ver como a tradição “se espalha” e como algumas foram redescobertas/restauradas.
• Prato e Lucca para o lado “cidade menor, achado maior”.
3) Epílogo em São Paulo
• Bixiga como “spin-off brasileiro”: tradição reinterpretada como cultura de rua.
A janelinha do vinho é o tipo de invenção que prova que a humanidade evolui em espiral: a gente inventa o comércio, inventa o balcão, inventa o aplicativo… e volta feliz para um buraco na parede, desde que venha com uma taça. Porque no fundo, a tecnologia que importa é simples: um muro, uma portinhola e a certeza de que do outro lado alguém entende suas prioridades.




