No Grande Canal, em Veneza, há palácios que parecem ter nascido para serem admirados. E depois há a Ca’ Dario, que parece ter nascido para ser observada com cautela. Não é a maior, nem a mais rica, nem a mais celebrada como a Ca’ Rezzonico ou a Ca’ Foscari. Mas é aquela que, há séculos, faz venezianos e visitantes sussurrarem a mesma frase, com o mesmo tom entre a ironia e o respeito: “Dá azar.”
E Veneza, como se sabe, acredita em tudo. Mas acredita com estilo.
A Ca’ Dario está ali, elegante e imóvel, debruçada sobre a água como uma nobre que não precisa pedir atenção: ela simplesmente a recebe. É uma joia do Renascimento, com uma fachada que parece renda de pedra, proporções perfeitas, mármores, geometrias, aquela luz pálida que em Veneza torna tudo ainda mais teatral.
Porque a Ca’ Dario não é o palácio que te convida: ela te seduz. E no instante em que te seduz, a história começa.
A fama de casa azarada nasce de um detalhe que em Veneza pesa mais do que qualquer documento: a soma das histórias, todas alinhadas como se fossem desenhadas.
Segundo a tradição, tudo começa com os primeiros dramas ligados à família Dario e às mudanças de propriedade: mortes repentinas, suicídios, ruína econômica — como se qualquer um que tentasse transformá-la em símbolo de poder acabasse pagando um preço.
Mas há também outra faísca, mais sutil, mais veneziana: a própria fachada, que para alguns “fala”.
Há quem jure que, nas decorações, é possível ler, como numa mensagem cifrada , uma frase sinistra. A lenda conta sobre uma inscrição “escondida” ou mal interpretada, capaz de se transformar numa profecia: algo como um aviso, um presságio.
E então existe o elemento mais forte de todos, aquele que dispensa símbolos: a lista de proprietários e moradores que terminaram mal, tão longa que parece um roteiro já escrito.
É aí que Veneza decide: não é azar. É destino.
O detalhe mais veneziano é este: a Ca’ Dario não está escondida numa ruela, não é uma sombra. Ela está no Grande Canal, o palco principal.
Agora todas as gôndola que passa desacelera por um segundo. Todo guia turístico baixa a voz.
Porque aqui não se fala apenas de história da arte: fala-se de azar como se fosse um fato arquitetônico, uma propriedade dos materiais, uma voz presa no reboco.
E a ideia serve para todo mundo: dá sentido às coincidências, organiza o caos, transforma a infelicidade em narrativa.
Que é o verdadeiro luxo de Veneza.
E então, um dia, chega a modernidade, chega a realidade.
Chega o comunicado, o folheto brilhante, a foto perfeita com o céu certo: a Ca’ Dario vai a leilão na imobiliária.
E, de repente, a maldição vira um slogan não declarado.
Porque o leilão sempre tem algo de cruel: coloca um preço em coisas que, por definição, deveriam estar fora do mercado. E em Veneza essa crueldade dobra, porque cada pedra já tem uma biografia.
Só que a Ca’ Dario não tem uma: tem muitas. E todas tortas.
É ali que nasce a piada, inevitável, que circula como um copo de vinho branco ao pôr do sol: “Ninguém compra.”
Dita com aquele sorriso veneziano que nunca é só sorriso. É superstição. É defesa. É uma forma de inteligência urbana.
Porque alguém, mais cedo ou mais tarde, sempre compra.
Compra quem não acredita em histórias.
Compra quem acha que são “só coincidências”.
Compra quem quer desafiar o destino, como se o destino fosse uma opinião.
Compra quem se apaixona pelas fachadas e não ouve os ruídos por trás.
E depois, talvez, o palácio continue ali. Não acontece nada.
Ou acontece alguma coisa.
Ou acontece apenas que viver dentro de um mito muda o jeito de respirar.
Porque, mesmo que você não acredite em maldições, uma coisa é certa: é muito difícil morar dentro de uma história sem virar parte dela.
Em Veneza, as casas não são apenas casas.
São depósitos de tempo, de ambição, de ciúme, de dívidas, de silêncios.
E a Ca’ Dario, mais do que todas, parece segurar o passado como se não quisesse deixá-lo seguir.
Talvez não seja amaldiçoada.
Talvez seja apenas um lugar que amplifica aquilo que você já é.
Mas a cidade, enquanto isso, continua fazendo o que sabe fazer melhor:
transforma tudo em costume, tudo em lenda, tudo numa frase para ser repetida.
E assim, enquanto a imobiliária prepara o leilão e o Grande Canal continua passando, lento e indiferente, a Ca’ Dario permanece ali: impecável, lindíssima, suspensa.
Como certas pessoas que você encontra uma única vez e que depois ficam em você.
E você, mesmo rindo, mesmo dizendo “ninguém compra”, sente:
em Veneza, os infortúnios sempre têm um endereço exato.
E às vezes… têm também uma fachada de sonho.

