Não é uma Itália que se mede por quilômetros ou fronteiras. É uma Itália que se reconhece à mesa, no gesto de repartir o pão, no tempo dedicado à acolhida, nas histórias que passam de mão em mão junto com os produtos. Uma Itália que não apenas emigra, mas se multiplica. É dessa geografia emocional e cultural que nasce o I Go Italian, a primeira rede internacional que conecta operadores da gastronomia italiana no mundo, inspirada nos valores reconhecidos pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial da humanidade.
Na Sala Falck da Assolombarda, em Milão, foram entregues as primeiras placas aos empresários que aderiram ao projeto. Na plateia, não havia apenas um público, mas uma comunidade: donos de restaurantes, produtores, chefs, empresários do setor agroalimentar, jornalistas. Rostos diferentes, histórias distantes, uma linguagem comum. Mais do que uma cerimônia, um gesto simbólico: a necessidade coletiva de reconhecimento não apenas pelo que se produz, mas pelo que se representa.
O I Go Italian não nasce como uma certificação nem como mais um selo de qualidade. Sua ambição é mais profunda e, de certo modo, mais arriscada: construir uma rede cultural antes mesmo de econômica. Uma rede que valoriza quem pratica a cozinha italiana como um conjunto de saberes, rituais, convivialidade e relação com os territórios. Não um catálogo de pratos, mas um patrimônio vivo feito de pessoas, comunidades e gestos cotidianos. Esse, afinal, é o verdadeiro sentido do reconhecimento da UNESCO.
O projeto toca em um ponto central da Itália contemporânea: a relação entre agricultura, cadeias produtivas, restauração e imaginário coletivo. Da grande distribuição especializada às pequenas bottegas artesanais, das trattorias no exterior aos produtores enraizados nos territórios, emerge uma função comum: fazer a ponte entre o Made in Italy real e aquele percebido no mundo. Entre o que somos e o que os outros acreditam que somos.
Os relatos vindos da Alemanha, Holanda, Bélgica, Estados Unidos, Brasil, mas também da Sicília e da Lombardia, contam a história de uma Itália que educa o paladar, constrói mercados, gera empregos, influencia hábitos alimentares e modelos de consumo. Um empresário resumiu tudo em uma frase marcante: “Exportamos o paladar antes mesmo dos produtos”. Foi assim que muitas pequenas empresas familiares conseguiram acessar mercados internacionais antes inalcançáveis.
O valor econômico se entrelaça, inevitavelmente, ao valor cultural. Nos restaurantes italianos no exterior, não se consome apenas comida: experimenta-se outro ritmo, uma forma diferente de acolhimento, uma sociabilidade que muitas vezes não pertence às culturas anfitriãs. Alguns chamam isso de educação do gosto, outros simplesmente de sentir-se em família. Expressões simples que revelam a profundidade do fenômeno.
Há também um retorno às origens, físico e simbólico. Algumas experiências mostram territórios que, a partir da agricultura e da transformação dos produtos, tornam-se espaços de vivência cultural: cozinha que dialoga com teatro, música e memória. Especialmente no Sul, a gastronomia se transforma em instrumento de reconexão para as segundas gerações de emigrantes, que através da comida reencontram uma identidade emocional antes mesmo de geográfica.
E existe o tema do futuro. Formação, transmissão de competências, renovação geracional. Sem esses elementos, a Itália da mesa corre o risco de virar apenas um relato nostálgico. Por isso, durante o encontro, destacou-se a urgência de investir nos jovens, para que esse patrimônio não seja apenas preservado, mas reinterpretado com consciência.
Em um mundo onde o italian sounding continua a gerar distorções e simplificações, o I Go Italian propõe outro caminho: não defender um selo, mas fortalecer uma comunidade. Conectar histórias autênticas, cadeias rastreáveis, práticas coerentes. Confiar a reputação não a um carimbo, mas às pessoas.
É uma Itália que, longe de suas fronteiras, continua a se contar através do gesto mais antigo e universal: compartilhar a comida.

