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Trieste, o lugar onde a Itália para por um instante e depois volta a caminhar

Piazza Dell Unita D'Italia Web

Trieste não se atravessa: escuta-se. É uma cidade que nunca gostou de definições rígidas, porque nasceu para estar no meio. No meio dos ventos, das línguas, das fronteiras. Umberto Saba a descreveu com uma graça áspera, quase ríspida, como um rapaz incapaz de ser domesticado. E continua sendo assim. Trieste não faz esforço para agradar e talvez seja exatamente por isso que permanece.

Capital do Friuli Venezia Giulia, no extremo nordeste da Itália, Trieste vive onde o país termina e a Europa realmente começa. Aqui o Mediterrâneo encontra a Mitteleuropa, o Adriático abraça o Carso, a identidade se torna porosa. É uma cidade de mar e pensamento, de silêncios longos e palavras medidas. Uma cidade que não consola, mas acompanha.

Uma cidade construída sobre a água e o vento

Trieste se debruça sobre o Golfo que leva seu nome e sempre encontrou no mar sua força e sua inquietação. Na época do Império Austro-Húngaro era chamada de “a pequena Viena sobre o mar”, porto estratégico e porta de entrada para o mundo. Ainda hoje é um dos principais portos do Adriático. A lembrar isso, severo e solene, está o Farol da Vitória, dedicado aos marinheiros triestinos mortos na Primeira Guerra Mundial.

O centro histórico conta essa vocação com naturalidade. Os edifícios monumentais que cercam a Piazza Unità d’Italia convivem sem rupturas com as casas mais baixas dos antigos comerciantes ao redor do Canal Grande. A bora chega repentina, varre a maior praça da Europa aberta diretamente para o mar e parece recolocar cada coisa em seu lugar. Aqui nada é decorativo: tudo resistiu.

Trieste está encaixada entre o mar Adriático e o planalto do Carso, a poucos quilômetros da Eslovênia e não muito distante da Ístria. É uma cidade de fronteira que nunca teve medo de olhar para além. Caminhar do Canal Grande até a Piazza Unità significa atravessar séculos de camadas culturais, respirar o aroma do café torrado nas antigas torrefações e perceber que a Europa aqui não é uma ideia abstrata, mas um exercício cotidiano.

O que ver: beleza contida, inquietação delicada

Trieste seduz sem pressa. O Borgo Teresiano revela a alma austro-húngara da cidade: ruas ortogonais, edifícios elegantes, ordem racional. O Canal Grande é seu eixo simbólico, espelho d’água onde se refletem a Igreja de Santo Antônio Novo e o Templo Sérvio-Ortodoxo de São Spiridione. Aqui as religiões não apenas coexistem: convivem.

Subindo em direção ao monte, a Catedral de San Giusto domina a cidade. Por fora é austera, quase severa. Por dentro surpreende: mosaicos de inspiração bizantina, relíquias, sobreposições que contam uma Trieste construída por acúmulos sucessivos, nunca por apagamentos.

Pouco distante, a Sinagoga de Trieste uma das maiores da Europa testemunha o papel central da comunidade judaica na vida cultural e econômica da cidade. Também aqui nada é casual: Trieste sempre acolheu, sem jamais perder a própria identidade.

Esta é uma cidade que produziu literatura antes de produzir imagens. Italo Svevo, James Joyce, Umberto Saba encontraram aqui um laboratório humano e intelectual. Trieste é introspectiva, nunca superficial. Nos museus, nos cafés, nas ruas laterais, ainda se percebe essa tensão sutil, essa necessidade de compreender antes de narrar.

Sentar-se em um café histórico não é uma pausa, é um ritual. No Antico Caffè San Marco o tempo não passa: se deposita. Entre espelhos, madeira e mármore, bebe-se um “nero” ou um “capo in b” e observa-se o mundo avançar lentamente. Aqui Trieste fala baixo.

A comida, em Trieste, é memória. É geografia comestível. O dia muitas vezes começa nos cafés históricos, com doces como a putizza ou o presnitz, heranças da Mitteleuropa. No almoço e no jantar convivem mar e terra: caldeiradas de peixe do Adriático, bacalhau, mas também goulash, joelho de porco, chucrute.

O prato-símbolo continua sendo a jota, sopa robusta de chucrute, batatas, feijão e carnes defumadas. Depois vêm as canocchie in busara, os cevapcici de influência balcânica, os queijos do Carso acompanhados por vinhos locais. Comer em Trieste significa atravessar fronteiras sem sair da mesa.

Como chegar a Trieste

Avião
O aeroporto do Friuli Venezia Giulia, em Ronchi dei Legionari, fica a cerca de 40 km da cidade e é conectado a várias cidades italianas. De lá, chega-se a Trieste rapidamente de trem (estação Trieste Airport) ou de ônibus.

Trem
Trieste é bem conectada a Milão, Roma e às principais cidades italianas, com trens diretos ou com troca em Veneza ou Bolonha.

Carro
Chega-se pela autoestrada A4 Veneza–Trieste e pela estrada costeira SS14, um dos trajetos mais sugestivos do alto Adriático.

Ônibus
Há conexões de baixo custo com a empresa Flixbus.

Uma cidade que não promete, mas permanece

Trieste não é para todos. Não suaviza, não simplifica. Mas se você ficar tempo suficiente, ela acompanha. É uma cidade para quem ama identidades complexas, para quem aceita que a Europa não seja uma linha reta, mas um entrelaçamento. Aqui a Itália não termina. Ela se interroga.

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