Pouca gente percebe, mas, quando as ruas do Bixiga enchem de gente, não é só uma festa que começa.
É uma viagem. Ela acontece toda vez que uma senhora corrige o jeito de fechar uma fogazza porque “a nonna fazia assim”. Quando alguém reconhece um sobrenome calabrês na fila da cantina. Quando o sino da igreja toca e, por alguns segundos, São Paulo parece esquecer que é São Paulo.
Durante um século, a Festa de Nossa Senhora Achiropita fez algo raro: conseguiu impedir que uma despedida virasse esquecimento e talvez seja por isso que o centenário tenha reservado um gesto que emociona até quem não tem uma gota de sangue italiano.
Neste fim de semana, a cidade onde essa história nasceu, na Calábria, veio buscar um pedaço de si que vive no Brasil.
Mas essa história começa muito antes dos navios, muito antes das malas de madeira, muito antes de existir uma Rua Treze de Maio cheia de bandeirinhas. Ela começa em Rossano, hoje parte do município de, onde há mais de mil anos uma imagem da Virgem Maria passou a ser chamada de Achiropita.
O nome vem do grego que significa “não feita por mãos humanas”. Segundo a tradição, artistas tentavam concluir a pintura quando perceberam que ela havia aparecido pronta. A fé fez o resto.
Séculos depois, essa imagem deixaria de pertencer apenas à Calábria, sem sair da igreja, porque foram as pessoas que a levaram consigo. Quando os calabreses embarcaram para o Brasil no começo do século passado, quase nada cabia na bagagem.
Mas sempre havia espaço para aquilo que não pesava: uma oração, um sotaque, uma receita, o nome da cidade e a imagem da santa. Eles chegaram ao Bixiga para trabalhar em obras, fábricas e pequenos comércios. Construíram casas apertadas. Aprenderam outro idioma. Viram filhos crescerem brasileiros.
Mas havia uma coisa que se recusava a desaparecer, a memória e em 1926, decidiram fazer uma pequena festa para Nossa Senhora Achiropita.
Não havia palco e nem patrocinadores, mas havia vizinhos e uma ideia simples. Se a terra natal ficou do outro lado do oceano, então a terra natal pisaria ali também e sem perceber, eles criaram algo maior do que uma quermesse, criaram uma forma de permanecer e cem anos depois, a festa continua acontecendo pelas mesmas razões.
É fácil fotografar a multidão, o difícil é fotografar o que mantém essa multidão unida, porque a Achiropita sobrevive graças a centenas de voluntários que trabalham durante meses.
Gente que aprendeu receitas olhando os avós, que conhece cada panela pelo nome, que nunca deixou de voltar. A festa movimenta pratos emblemáticos da tradição do sul da Itália, preparados por mais de mil voluntários como:
Beringela recheada (Melanzane ripiene), a Sardella (Rosa Marina ou Caviar da Calábria), os embutidos artesanais com destaque para a linguiça calabresa (Soppressata).
Ali, ninguém pergunta há quanto tempo você frequenta. Pergunta apenas: “Vai ajudar este ano?”
Talvez esse seja o verdadeiro patrimônio do Bixiga, a tradição nunca ficou presa numa vitrine, ela continuou sendo passada de mão em mão.
Cem anos depois a Calábria respondeu e para selar o centenário, neste final de semana, uma delegação oficial de Corigliano-Rossano, liderada pelo prefeito Flavio Stasi, desembarcou em São Paulo para iniciar um projeto de gemellaggio — o irmanamento inédito entre o bairro do Bixiga e a cidade de Corigliano – Rossano.
Na prática, significa criar uma relação permanente, com intercâmbios culturais, educacionais e institucionais, mas para vigorar em São Paulo, o processo dependerá de aprovação da Câmara Municipal por meio de lei específica, existe também uma maneira melhor e mais simples de explicar, é como se Rossano dissesse ao Bixiga: “Vocês cuidaram da nossa história durante cem anos. Agora queremos cuidar dela junto com vocês.”
Ao lado da comitiva está o arcebispo Dom Maurizio Aloise, da Arquidiocese de Rossano-Cariati e eles trouxeram um presente impossível de comprar e de valor inestimável, um ícone em estilo bizantino da Madonna Achiropita, vindo da terra onde nasceu a devoção e pela primeira vez em muito tempo, não foi o Brasil que olhou para a Itália, foi a Itália que olhou para o Brasil e reconheceu uma parte de si.
Nesta história há um detalhe que talvez diga mais sobre o futuro do que qualquer cerimônia oficial, os jovens voluntários da Achiropita serão levados para Rossano onde passarão por uma imersão na língua italiana, na cultura calabresa e conhecerão os pontos turísticos mais importantes além da igreja Mãe e com todas as despesas custeadas pela comune italiana
No último fim de semana da edição histórica do centenário, é fácil acreditar que a Achiropita seja apenas uma das maiores festas de São Paulo, mas isso seria muito pouco, ela é uma carta escrita por imigrantes em 1926 que continua sendo lida em voz alta cem anos depois., é uma prova de que um bairro cabe bem em uma cidade.
Rossano continua existindo na Calábria, mas agora também continua existindo no Bixiga e talvez seja essa a parte mais bonita de toda a história.
A imagem de Nossa Senhora Achiropita recebeu um nome porque, segundo a tradição, não foi pintada por mãos humanas, já a festa, ao contrário, foi construída por milhares delas: mãos que fritaram, que rezaram, que serviram, que abraçaram e que ensinaram filhos e netos a voltar todos os anos.
Talvez seja por isso que ela tenha atravessado cem anos, porque há histórias que sobrevivem quando são escritas em papel e há outras que só sobrevivem quando continuam sendo contadas por pessoas.
A Achiropita escolheu o segundo caminho, com o apagar das luzes do Bexiga ao final da festa do centenário, talvez o maior reencontro não aconteça entre o bairro e a cidade, mas entre as gerações. Como se, por uma noite, a Calábria inteira voltasse para casa.

