Do Vêneto ao Brasil: a viagem de Michele Buoso em busca das raízes familiares

Mais de 9 mil quilômetros de distância, 134 anos de história e um vínculo familiar que permaneceu suspenso no tempo. É a partir desses três elementos que começa a tomar forma a história de Assunta e de seu primo Ivo Sante Donin, que mais tarde se tornaria monsenhor Ivo Sante Donin.

Uma história que começa em Terrazzo, pequeno município da região da Baixa Veronese, com pouco mais de dois mil habitantes, e chega até Sumidouro, no estado do Rio de Janeiro, no Brasil, uma cidade com cerca de 15 mil habitantes, conhecida também por suas cachoeiras.

Quem decidiu reconstruir esse fio interrompido foi Michele Buoso, 33 anos, team leader em uma agência de marketing e bisneto de Assunta. Tudo começou quase por acaso, com uma velha gaveta esquecida e uma fotografia amarelada pelo tempo. A partir daqueles poucos indícios começou uma pesquisa que acabaria se transformando em uma viagem e, sobretudo, na redescoberta de uma parte de sua própria família.

A pesquisa de Michele permitiu reconstruir uma relação que havia permanecido distante por mais de um século, colocando novamente em contato dois ramos da mesma família: um que permaneceu ligado às suas origens em Terrazzo e outro que cresceu do outro lado do Atlântico, no Brasil.

É uma história pessoal que, ao mesmo tempo, está inserida em um fenômeno muito maior: o da grande emigração vêneta para a América do Sul entre o final do século XIX e o início do século XX. Milhares de homens e mulheres deixaram o Vêneto impulsionados pela pobreza e pela falta de perspectivas, enfrentando uma viagem rumo a uma terra desconhecida.

No Brasil, encontraram um país que precisava sobretudo de mão de obra. Os conhecimentos agrícolas, a capacidade de trabalhar a terra e a tradição artesanal dos vênetos representavam recursos valiosos para as comunidades que estavam surgindo.

Assim, muitas gerações depois, a história de Assunta e Ivo Sante Donin conta algo que vai além de uma simples pesquisa genealógica. Conta como a memória familiar pode sobreviver ao tempo e à distância e como, às vezes, uma fotografia esquecida é suficiente para reabrir uma porta que permaneceu fechada por mais de cem anos.

Uma história como tantas outras, com um protagonista que faz parte da memória de muitas famílias: a clássica gaveta esquecida, uma fotografia amarelada, uma cor que revela os anos passados no escuro. Na fotografia, outro protagonista: um sacerdote.

Ao fazer perguntas e iniciar suas primeiras pesquisas, Michele descobriu que aquele sacerdote era um parente brasileiro de sua bisavó.

Essas poucas informações foram suficientes para despertar nele a vontade de procurar mais, de mergulhar no passado e tentar reconstruir aquela história familiar que havia permanecido quase esquecida durante décadas.

E onde procurar quando quase não se tem nada em mãos? Nos arquivos do Estado, naturalmente, e em uma seção específica: aquela dedicada aos antepassados.

Pouco a pouco, Michele reconstruiu sua árvore genealógica. E foi justamente dentro dessa árvore que reencontrou também o nome do sacerdote que aparecia na fotografia amarelada.

Durante a pesquisa, Michele descobriu que um dos oito filhos de Orlandino Donin deixou, em 1892, a pequena cidade de Terrazzo, embarcando no navio Cheribon com destino ao Brasil.

Ao chegar ao Brasil, casou-se com outra imigrante vêneta, Angela Longo, natural de Valdobbiadene. Encontrou trabalho nas plantações de café e nunca mais voltou para a Itália.

O filho de Orlandino Donin, Ivo Sante, tornou-se sacerdote: era justamente o padre retratado na fotografia encontrada por Michele na velha gaveta.

A pesquisa de Michele também avançou graças a um pedido publicado em um grupo do Facebook dedicado à cidade de Sumidouro. Foram muitas as testemunhas que entraram em contato com Michele Buoso, trazendo relatos positivos e cheios de carinho, além de lembranças daquele sacerdote que, para a comunidade local, foi uma verdadeira luz.

Durante décadas, o único fio capaz de manter unidas as duas margens do oceano foram as cartas que monsenhor Ivo trocava com sua prima de Terrazzo, Assunta Donin, filha de Albino, irmão mais novo de Orlandino. A minha bisavó Assunta.

Com a morte do sacerdote, em 1982, também se interrompeu aquele fio de comunicação entre o Brasil e a Itália.

Esse fio foi retomado justamente por Michele, decidido a reatar as lembranças e reencontrar os parentes daquele ramo da família que havia emigrado para o Brasil.

Michele, que já havia programado uma viagem ao Brasil com alguns amigos, decidiu aproveitar a oportunidade para procurar e conhecer seus parentes brasileiros. Uma verdadeira peregrinação às raízes.

Pensem que a Prefeitura de Terrazzo confiou a ele o estandarte oficial do município, entregue pelo prefeito Enrico Visentin, juntamente com uma bonita carta e um livro sobre a história da cidade de Terrazzo.

No Brasil, a música não mudou. A cidade e a comunidade de Sumidouro receberam, juntamente com as autoridades locais, Michele e seus parentes brasileiros, organizando um encontro público com o título “Recordar é viver”.

Muitos anos de desencontros e de vazios foram preenchidos em um dia muito especial. A viagem de Michele também é dedicada a Assunta, sua bisavó, que gostaria de ter visitado os parentes no Brasil. Uma viagem que nunca aconteceu, um sonho que se perdeu no tempo, mas que hoje foi realizado por seu bisneto.

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