Quando se fala em turismo na Itália, as primeiras imagens costumam ser as mesmas: o Coliseu de Roma, os canais de Veneza, o Duomo de Milão, a Torre de Pisa ou as paisagens da Costa Amalfitana. Mas a verdadeira riqueza turística do país talvez esteja muito além desses cartões-postais. Espalhados pelas montanhas, colinas e vales italianos existem milhares de pequenos municípios que preservam castelos medievais, tradições centenárias, gastronomia típica e um patrimônio histórico praticamente intocado pelo turismo de massa.
É justamente esse potencial que a Itália pretende explorar nos próximos anos. Segundo um estudo apresentado pela Confturismo-Confcommercio e divulgado pelo jornal La Gazzetta del Mezzogiorno, o fortalecimento do turismo nos pequenos municípios italianos pode gerar cerca de 1,6 bilhão de euros em Produto Interno Bruto (PIB) e criar aproximadamente 14 mil novos empregos nos próximos cinco anos.
O levantamento identificou 2.137 pequenos municípios localizados nas chamadas áreas internas, regiões afastadas dos grandes centros urbanos que possuem forte vocação turística. Hoje, porém, apenas cerca de 16% dessas cidades conseguem explorar plenamente esse potencial, enquanto a grande maioria ainda recebe um fluxo reduzido de visitantes, apesar do enorme patrimônio histórico, cultural e natural que abriga.
Mesmo assim, esses destinos já movimentam números expressivos. Os municípios mais consolidados registram juntos mais de 128 milhões de pernoites por ano, gerando cerca de 25 bilhões de euros em gastos turísticos. Outros quase 1.800 municípios ainda apresentam baixa visibilidade, mas somam aproximadamente 33 milhões de pernoites anuais e movimentam cerca de 6 bilhões de euros, indicando uma ampla margem para crescimento.
O modelo que a Itália pretende fortalecer segue uma tendência cada vez mais presente entre viajantes do mundo inteiro: o chamado turismo lento. Em vez de viagens rápidas concentradas em grandes cidades, cresce o interesse por experiências mais autênticas, com estadias prolongadas em pequenas comunidades, contato com produtores locais, trilhas, cicloturismo, vinícolas, gastronomia regional e patrimônio histórico.
Essa estratégia também ajuda a enfrentar um dos maiores desafios do turismo italiano: o excesso de visitantes em destinos tradicionais como Veneza, Florença e Roma durante a alta temporada. Ao distribuir melhor os fluxos pelo território, o país busca gerar desenvolvimento econômico em regiões menos conhecidas, reduzir a pressão sobre os grandes centros e oferecer experiências mais sustentáveis tanto para moradores quanto para turistas.
Entre os exemplos frequentemente citados estão cidades como Jesolo, Caorle, Lazise, San Michele al Tagliamento e Cavallino-Treporti, que, apesar de não serem grandes metrópoles, conseguem atrair milhões de visitantes todos os anos graças à combinação de patrimônio, infraestrutura e identidade local.
Dentro dessa estratégia, o governo italiano também aposta em novos roteiros nacionais ligados aos caminhos históricos e espirituais. Entre eles está o Cammino di Francesco, inspirado na trajetória de São Francisco de Assis, que será oficialmente lançado nas próximas semanas e conectará cidades como Roma, Florença, Rimini e Ascoli Piceno até chegar a Assis. A iniciativa segue o sucesso de grandes rotas internacionais, como o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha.
Para o visitante brasileiro, esse movimento representa uma oportunidade de descobrir uma Itália diferente daquela dos roteiros tradicionais. Em vez das filas intermináveis dos grandes monumentos, surgem pequenas praças medievais, igrejas centenárias, vinhedos familiares, festivais populares e paisagens preservadas que contam uma história menos conhecida, mas igualmente fascinante.
A Itália parece apostar justamente nessa mudança de olhar: mostrar que, muitas vezes, sua maior riqueza não está apenas nas cidades mais famosas, mas também nos pequenos lugares onde a cultura, a hospitalidade e as tradições continuam fazendo parte do cotidiano.
As joias escondidas da Itália: pequenos vilarejos podem liderar o turismo do futuro

