Enquanto milhões de torcedores acompanham a Copa do Mundo, a Itália volta a mostrar que o futebol também pode ser uma poderosa ferramenta de solidariedade. No próximo 13 de julho, a cidade de L’Aquila, nos Abruzos, receberá a 35ª edição da Partita del Cuore, tradicional partida beneficente que neste ano destinará recursos às vítimas do devastador terremoto que atingiu a Venezuela.
Segundo informações divulgadas pela RaiNews, toda a arrecadação obtida por meio do número solidário de doações será destinada às operações humanitárias conduzidas pela Cruz Vermelha Italiana, em parceria com o Unicef e o ACNUR, para atender a população venezuelana. Parte da renda obtida com os ingressos também financiará projetos sociais voltados aos jovens de L’Aquila, cidade que se tornou símbolo de reconstrução após o terremoto de 2009.
A dimensão da tragédia explica a mobilização. O terremoto que atingiu a Venezuela deixou mais de 3.500 mortos, cerca de 16 mil feridos e milhares de desaparecidos, além de provocar uma grave crise humanitária. Entre as maiores preocupações das organizações internacionais está a situação das crianças que perderam suas famílias ou vivem em situação de extrema vulnerabilidade, expostas ao tráfico de pessoas, à violência e à exploração.
A partida será disputada no estádio Gran Sasso d’Italia, com transmissão ao vivo pela televisão italiana, reunindo novamente a tradicional Nazionale Cantanti, formada por músicos e artistas, e a Nazionale Politici, equipe composta por parlamentares e representantes das instituições italianas. A edição deste ano integra ainda a programação oficial de L’Aquila Capitale Italiana della Cultura 2026, reforçando o papel do esporte como instrumento de mobilização social.
Poucos eventos representam tão bem essa tradição italiana quanto a Partita del Cuore. Criada no início dos anos 1980 por um grupo de artistas apaixonados por futebol, a iniciativa nasceu quase como uma brincadeira entre amigos. Com o passar dos anos, transformou-se em uma das maiores campanhas beneficentes do país, capaz de unir personalidades da música, da televisão, do esporte e da política em torno de causas humanitárias.
A grande protagonista sempre foi a Nazionale Italiana Cantanti, equipe fundada oficialmente em 1981 e que, desde então, disputou centenas de partidas solidárias. Ao longo de mais de quatro décadas, o projeto arrecadou dezenas de milhões de euros destinados à pesquisa médica, hospitais, crianças com doenças raras, vítimas de terremotos, enchentes, guerras e outras emergências humanitárias.
Em um país onde o futebol faz parte da identidade nacional, a ideia de transformar uma partida em um gesto coletivo de solidariedade encontrou rapidamente apoio popular. A Partita del Cuore tornou-se presença frequente na televisão italiana, reunindo grandes públicos e artistas de diferentes gerações. Nomes como Eros Ramazzotti, Gianni Morandi, Claudio Baglioni, Nek, Luca Barbarossa, Enrico Ruggeri e muitos outros já vestiram a camisa da seleção dos cantores ao longo da história.
A edição de 2026 manterá essa tradição. O time dos artistas será liderado pelo novo capitão Sal Da Vinci e contará com cantores, rappers e atores italianos, enquanto a equipe dos políticos reunirá representantes de diferentes correntes partidárias, mostrando que, ao menos por uma noite, as diferenças ficam em segundo plano diante de um objetivo comum.
Mais do que um jogo de futebol, a Partita del Cuore tornou-se um dos símbolos da capacidade italiana de transformar entretenimento em solidariedade. Em um momento em que os olhos do mundo estão voltados para os gramados da Copa, a partida lembra que algumas vitórias não são medidas em gols, mas na ajuda concreta oferecida a quem perdeu praticamente tudo.

