Do símbolo da mobilidade urbana ao caos nas ruas: a Itália aperta o cerco aos patinetes. E o Brasil?

A Itália vive agora uma nova etapa dessa história. Depois de anos de crescimento acelerado e de um aumento constante no número de acidentes, o país endureceu as regras para quem utiliza patinetes elétricos. Segundo reportagem do Corriere della Sera, as mudanças buscam equilibrar os benefícios da micromobilidade com a necessidade de tornar o trânsito mais seguro.
O desafio não é pequeno. Os patinetes ajudaram a reduzir congestionamentos, diminuíram emissões de poluentes e passaram a fazer parte da rotina de milhares de pessoas, principalmente em cidades como Milão, Roma, Turim e Bolonha. Em alguns corredores urbanos, a expansão da infraestrutura cicloviária acelerou ainda mais esse fenômeno. Em um único mês, por exemplo, a movimentada Corso Buenos Aires, em Milão, registrou cerca de 156 mil viagens realizadas por bicicletas e patinetes compartilhados, mostrando como esses veículos deixaram de ser novidade para se transformar em parte do cotidiano.
Mas a popularização trouxe consequências. Nos últimos seis anos, a Itália registrou dezenas de mortes e milhares de acidentes envolvendo patinetes elétricos. Muitos casos tiveram como pano de fundo comportamentos de risco: circulação em calçadas, excesso de velocidade, uso por duas pessoas ao mesmo tempo, direção na contramão e, principalmente, a ausência de capacete.
Foi nesse contexto que entrou em vigor a reforma do Código de Trânsito italiano. Desde maio, os proprietários precisam solicitar um identificador oficial vinculado ao condutor. Agora, a partir de julho, outra exigência entra na lista: o seguro obrigatório de responsabilidade civil, além da manutenção da obrigatoriedade do capacete para todos os usuários. Os veículos também devem possuir luzes, freios nas duas rodas e indicadores de direção. Quem desrespeitar as regras poderá receber multas que variam conforme a infração. O problema é que a burocracia ainda não acompanhou o ritmo da legislação: há atrasos na entrega das identificações e o mercado segurador ainda trabalha para adaptar produtos específicos aos novos requisitos.
Apesar das críticas, especialistas lembram que o problema talvez nunca tenha sido o veículo em si. O patinete nasceu para substituir pequenos deslocamentos feitos de automóvel, ocupando muito menos espaço nas ruas e consumindo uma fração da energia necessária para mover um carro. O verdadeiro desafio está na convivência entre diferentes formas de transporte dentro de cidades cada vez mais disputadas.
Esse debate também diz respeito ao Brasil.
Os patinetes chegaram ao país cercados de entusiasmo entre 2018 e 2019. Empresas internacionais inundaram cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Brasília com milhares de veículos compartilhados. Durante alguns meses, parecia que o Brasil repetiria o modelo europeu. A realidade, porém, mostrou-se mais complexa.
A falta de regras uniformes, o alto índice de vandalismo, dificuldades operacionais e os acidentes fizeram muitas empresas abandonarem o mercado brasileiro poucos anos depois. Ainda assim, o veículo nunca desapareceu completamente. Hoje, o crescimento acontece principalmente entre proprietários particulares, impulsionado pela redução dos preços e pela busca por alternativas mais econômicas para enfrentar o trânsito das grandes cidades.
No Brasil, a regulamentação segue principalmente as normas do Conselho Nacional de Trânsito (Contran). Os patinetes são classificados como equipamentos de mobilidade individual autopropelidos e possuem velocidade limitada. O uso deve ocorrer preferencialmente em ciclovias e ciclofaixas e, onde elas não existirem, em vias locais com velocidade reduzida. O capacete é fortemente recomendado, embora ainda não seja obrigatório em todo o território nacional, e cada município pode estabelecer regras complementares.
Enquanto isso, cidades europeias seguem endurecendo suas normas. Paris praticamente eliminou os patinetes compartilhados após um referendo popular. Madri e outras capitais também ampliaram restrições. A Itália escolheu outro caminho: manter a micromobilidade, mas exigir mais responsabilidade de quem a utiliza.
O debate revela uma transformação muito maior do que parece. As cidades do século XXI procuram reduzir a dependência do automóvel sem abrir mão da segurança. Bicicletas, patinetes, transporte público e carros precisarão dividir o mesmo espaço, exigindo infraestrutura adequada, educação no trânsito e fiscalização eficiente.
No fim das contas, o patinete elétrico talvez represente um dos maiores paradoxos da mobilidade moderna. Ele oferece uma solução inteligente para cidades congestionadas e mais sustentáveis, mas também mostra que nenhuma inovação tecnológica funciona sem regras claras — e, sobretudo, sem uma cultura de respeito compartilhado entre todos que circulam pelas ruas.
