Há cinquenta e oito anos, Verona repete o mesmo ritual. E, curiosamente, nunca parece igual. Vinitaly 2026, de 12 a 15 de abril, não é apenas uma feira: é uma transformação. A cidade muda de função, quase de identidade. Torna-se uma capital líquida onde taças, idiomas e negociações internacionais convivem sem esforço.
Aqui, o vinho deixa de ser produto. Torna-se linguagem. Economia. Poder cultural. Os números impressionam, mas não explicam tudo. Milhares de expositores, operadores e compradores de mais de 140 países. Mais de 19 mil encontros de negócios organizados. Mais de 100 eventos entre masterclasses e degustações, além de mais de 30 mesas-redondas. Vinitaly permanece entre as maiores plataformas globais do setor vitivinícola.
Mas reduzi-lo a estatísticas seria perder o essencial. Em Verona, o vinho mostra sua face mais concreta: a econômica. O setor vitivinícola é uma das engrenagens mais sólidas do Made in Italy agroalimentar, movimentando bilhões e consolidando a Itália como potência global. Vinitaly funciona como um observatório antecipado. Aqui se captam tendências, mudanças de consumo, novos territórios, reposicionamentos estratégicos.
As empresas não vêm apenas para vender. Vêm para entender para onde o vinho está indo. E, muitas vezes, para decidir para onde ele deve ir.
A edição de 2026 adiciona uma camada simbólica forte. Após o projeto de Massimo Bottura, será Carlo Cracco a assumir a proposta gastronômica do Pavilhão Emilia-Romagna. A passagem ocorreu em um lugar carregado de significado: Casa Maria Luigia.
Cracco leva ao evento uma visão quase física do vinho: produzir significa tocar a terra, aceitar o tempo, respeitar ritmos que não podem ser acelerados. Essa filosofia se materializa em dois espaços. O restaurante “Cracco al Vinitaly”, com menu estruturado e serviço completo, e a “Piadina VistaMare”, proposta mais informal dedicada a um dos símbolos mais identitários da Romagna. Alta gastronomia e território lado a lado, sem mediação.
Mas Vinitaly não se limita aos pavilhões. Ele transborda pela cidade
Vinitaly and the City retorna de 10 a 12 de abril, ocupando o centro histórico de Verona, patrimônio da UNESCO. Durante três dias, o vinho abandona o ambiente das negociações e volta ao corpo da cidade. Praças, pátios e torres tornam-se espaços de degustação, encontros e experiências.
Os horários são precisos:
sexta-feira, 10 de abril, das 18h às 23h;
sábado, 11 de abril, das 15h às 23h;
domingo, 12 de abril, das 15h às 23h.
O carnet de degustação custa 18 euros na pré-venda online (mais 1,50 de taxa). Durante o evento, sobe para 22 euros. Inclui um cálice oficial com suporte de pescoço, quatro tokens para degustações vinho ou mixologia e um token extra para experiências especiais. O acesso inclui espaços como Piazza dei Signori, Cortile Mercato Vecchio, Cortile del Tribunale e Torre dei Lamberti, além de lounges dedicadas.
E não para por aí. Mais de 70 eventos compõem o “fora de salão”: talks, visitas guiadas, encontros literários. Há ainda a possibilidade de acessar a Arena de Verona e explorar a Strada del Vino della Valpolicella, com degustações em 15 vinícolas entre 13 de abril e 3 de maio. À noite, a cidade continua: Vinitaly & the Night transforma as Gallerie Mercatali em palco de festas nos dias 11, 12 e 14.
Dentro da feira, o mapa do vinho contemporâneo se expande
Surge a área NoLo – Vinitaly Experience, dedicada ao universo No-Low Alcohol, no segundo andar do Palaexpo, reunindo toda a cadeia produtiva e tecnológica de um segmento em crescimento constante. Degustações, masterclasses e análises de mercado consolidam esse novo comportamento de consumo.
Debuta também o pavilhão Xcellent Spirits, uma estrutura de mil metros quadrados dedicada aos destilados, ready-to-drink e mixologia. No centro, o Temple Bar, com bartenders italianos em rotação, transformando o espaço em laboratório vivo do beber contemporâneo. Eventos como o Aperitivo all’italiana reforçam essa ponte entre tradição e evolução.
O prólogo do evento, como sempre, é o Opera Wine, no dia 11 de abril. Cento e cinquenta vinícolas selecionadas pela Wine Spectator divididas entre Legacy Icon, Classic e New Voices compõem uma vitrine que define o padrão do vinho italiano no mundo.
E depois há o vinho que resiste.
Os Raw Wines, no dia 13, apresentam rótulos naturais, biológicos e biodinâmicos de diferentes países, selecionados sob critérios rigorosos pela rede fundada por Isabelle Legeron. Um contraponto ao mercado de massa, uma outra narrativa possível.
As degustações continuam com projetos como Micromega Wines, seleção de pequenos produtores do norte da Itália, e “Vigne dal mondo”, uma viagem por países como França, Japão, Geórgia e Palestina sob a curadoria de Riccardo Cotarella. Diferentes territórios conectados por uma mesma visão.
E há também uma mudança silenciosa, mas profunda: as Sbarbatelle. Jovens produtoras, menores de 35 anos, que representam uma nova geração do vinho italiano. Mais técnica, mais consciente, mais contemporânea.
Vinitaly 2026 também consolida o enoturismo como eixo estratégico. A área Vinitaly Tourism amplia espaços e agenda, conectando produtores a operadores e criando experiências personalizadas antes e depois da feira. O vinho deixa de ser apenas consumo. Torna-se destino.
O acesso ao evento principal custa 125 euros e é reservado a profissionais do setor, com abertura parcial ao público qualificado no domingo e na quarta-feira. Mas talvez a pergunta mais importante não esteja no preço, nem nos números, nem nos nomes.
O que faz Vinitaly ser diferente?
Muitas feiras falam de vinho. Poucas conseguem ser vinho.
Durante quatro dias, Verona não hospeda um evento. Ela se dissolve nele. Torna-se fluxo, negociação, memória, ambição. Um lugar onde tradição e mercado não entram em conflito se alimentam.
E talvez seja isso que o vinho sempre foi. Uma forma de contar o mundo sem precisar explicá-lo.
Informações úteis
Evento: Vinitaly 2026
Datas: 12 a 15 de abril de 2026
Local: Veronafiere
Endereço: Viale del Lavoro 8, Verona
Ingressos: 125 euros (profissionais; acesso parcial ao público no domingo e quarta-feira)
Vinitaly and the City:
Datas: 10 a 12 de abril
Carnet degustação: 18€ antecipado (+1,50 taxa) / 22€ no local
Como chegar:
De trem: estação Verona Porta Nuova, conectada às principais cidades italianas
De avião: aeroporto Valerio Catullo, a cerca de 10 km
De carro: saída Verona Sud, com estacionamentos e transfer durante o evento
Site oficial: www.vinitaly.com
Em abril, Verona deixa de ser apenas uma cidade. Vira mapa. Vira mercado. Vira linguagem.

