Na grande fauna urbana dos metrôs italianos existe uma espécie rara, quase mitológica: o leitor de livros. Não o usuário de smartphone que desliza compulsivamente vídeos de gatos ou mensagens de áudio intermináveis, mas ele mesmo, o leitor com objeto de papel nas mãos. Um ser que, nas horas de pico entre Roma e Milão, aparece como um animal resistente, sobrevivente da era digital.
Em Roma ele é fácil de reconhecer. Está sentado na linha B com um romance um pouco amassado, muitas vezes enfiado no bolso lateral da mochila. Tem o ar de quem já enfrentou muitas coisas na vida: greves de transporte, atrasos crônicos e conversas telefônicas gritadas em dialeto. Lê com concentração estoica enquanto o vagão balança entre Piramide e Termini. O leitor romano do metrô costuma ser professor, pesquisador precário, arquiteto freelancer ou funcionário de ministério que cultiva a ilusão de ainda possuir uma vida interior. Seus livros preferidos são grandes clássicos, ensaios históricos ou romances contemporâneos com títulos levemente melancólicos.
Em Milão a tribo é mais disciplinada. O leitor milanês entra na linha vermelha ou verde com um livro recém-comprado, capa perfeita e marcador de páginas combinado. Fica em pé sem perder a linha da leitura, como se ler fosse uma atividade física certificada. Trabalha frequentemente em consultoria, marketing ou finanças. Lê narrativa internacional, livros de negócios e algum best-seller filosófico que promete melhorar a produtividade da alma.
Entre essas duas populações existem também subespécies interessantes.
Há o leitor estratégico, aquele que abre o livro apenas entre duas estações, só para demonstrar que não é escravo do smartphone. Há o leitor romântico que usa a leitura para se isolar do mundo e imaginar que alguém ao lado esteja observando com admiração o título do livro. E depois há o leitor obstinado, o mais raro: lê mesmo quando o vagão está lotado, dobra o pulso em noventa graus e continua imperturbável entre um empurrão e outro.
Em uma época em que o olhar médio do metrô está inclinado quarenta e cinco graus para a tela do celular, o leitor se tornou quase uma figura teatral. Quem está ao lado observa com curiosidade antropológica. Alguém espia discretamente a capa do livro. Outro se pergunta se não seria mais fácil ouvir um podcast.
E, no entanto, a tribo resiste.
Entre notificações, vídeos verticais e mensagens de áudio intermináveis, ainda há quem escolha carregar trezentas páginas de papel. Não por nostalgia, mas por aquele pequeno privilégio que o metrô concede todos os dias: atravessar a cidade sem realmente olhá-la, enquanto a mente viaja para outro lugar.
Em Roma, entre um anúncio chiado e outro.
Em Milão, com pontualidade quase suíça.
Sempre com um livro aberto. E com a leve suspeita de serem os últimos da espécie.

